HC faz 141 partos de risco por mês

Elisângela Soares tem 34 anos de idade e na última se­mana era uma das gestantes que aguardavam atendimento no Ambulatório de Gravidez de Alto Risco do Hospital das Clínicas da Faculdade de Me­dicina de Ribeirão Preto – li­gada à Universidade de São Paulo (USP). O espaço, con­siderado referência no setor, é subordinado às divisões de Ginecologia e de Obstetrícia e atende em média 50 gestan­tes por dia, 300 por semana, das quais 30 são casos novos. Por conta deste atendimento o HC também realiza uma mé­dia de 141 partos de alto risco por mês, quase cinco por dia (4,7). Somente no ano passado foram feitos 1.693, dos quais 50% em pacientes de outras ci­dades – mais de 840.

Considera-se gestação de alto risco, aquela em que existem possibilidades de complicações durante a gravidez ou no parto, colocando a vida da mãe ou do bebê em risco. Esses problemas são detectados durante a reali­zação do pré-natal. Residente em Altinópolis, cidade a 56 quilômetros de Ribeirão Preto, Elisângela está no sétimo mês de gestação e foi encaminhada ao HC pela Secretaria Municipal de Saúde de sua cidade após diag­nóstico de “alto risco”.

O motivo? A hipertensão, doença crônica em que a pres­são nas artérias se encontra constantemente elevada e que se não for controlada pode causar sérios problemas para ela e seu futuro bebê. Após o inicio do acompanhamento pré-natal no HC, a hipertensão está sobre controle, o que é motivo de co­memoração para ela e o marido. O casal já tem duas filhas. “Gra­ças a Deus e aos médicos, agora está tudo bem”, completa.

Pacientes de fora 
A exemplo de Elisângela, o Ambulatório de Gestação de Alto Risco do Hospital das Clínicas recebe gestantes enca­minhadas por municípios da região e até de outros estados. Só para se ter uma idéia desta abrangência, das 26 cidades que integram o Departamento Regional de Saúde de Ribei­rão Preto (DRS-13), apenas a Santa Casa de Sertãozinho e o Hospital das Clínicas realizam pré-natal e parto em gestantes com gravidez de alto risco.

Todas as outras cidades e, em vários casos até Sertãozinho, en­caminham as pacientes com este tipo de gestação para o HC. Pre­dominantemente o pré-natal é realizado na rede básica de saú­de dos municípios. As gestantes só são encaminhadas para o Hospital das Clínicas quan­do são detectadas doenças ou anomalias na mãe ou no bebê que resultam em risco para a grávida, para o feto ou para ambos. A rede básica possui uma classificação que define quando e porque deve ser feito o encaminhamento.

Entre os encaminhamentos previstos estão, por exemplo, casos em que a mãe é porta­dora de alguma infecção com risco de transmissão para o seu filho, como vírus HIV, da hepatite B. Já no caso do feto, as más formações estruturais e os defeitos metabólicos – quando não há produção de determinadas substâncias que o organismo precisa é um dos fatores determinantes. Outro fator para o encaminhamento é a gravidez de gêmeos.

Este é o caso de Cristiana de Souza Santos, de 26 anos. Grávida de 32 semanas. Ela era atendida na Unidade Básica de Saúde da região do Jardim Pro­gresso, em Ribeirão Preto, onde reside. Entretanto, passou a ter sua gravidez acompanhada no Hospital das Clínicas onde de­verá “dar a luz” a dois meninos. “Estou sendo muito bem acom­panhada”, afirma Cristiana.

O Ambulatório de Gestação de alto Risco funciona de se­gunda a sexta-feira a partir das 13 horas e é dividido por espe­cialidades. Ou seja, cada dia da semana atende um agrupamen­to de gestantes com doenças ou situações de risco. Vale ressaltar que nos casos em que os proble­mas são controlados e não sig­nificam mais riscos para a mãe e para o feto, a gestante é reenca­minhada para a Rede Básica de Saúde de sua cidade.

Principais problemas que causam gravidez de risco

Para as mães
Hipertensão arterial Infecções de um modo geral Diabetes mellitus Tireóide supra renal Endocrinopatia Gravidez gemelar Obesidade Cardiopatia Pneumopatia Nefropatia

Para o feto – perinatal
Possibilidade de ser infectado pelo Vírus HIV, vírus da hepatite B e C, toxoplasmose, rubéola, entre outras Má formação fetal ( origem genética ou não) Defeitos metabólicos – feto não produz deter­minadas substâncias que o organismo precisa Restrição de crescimento fetal Sofrimento fetal
Fonte: Divisão de Obstetrícia do HC/RP

Um apaixonado pela Obstetrícia 
Professor titular chefe da Divisão de Obstetrícia do Hospital das Clínicas, o médico Geraldo Duarte é um apaixonado por seu trabalho. Um exem­plo desta abnegação está no fato de que desde que começou a trabalhar naquele departamento ele faz um levantamento sobre todos os procedi­mentos realizados por ele e sua equipe. Todos os dados são minuciosa­mente contabilizados em seu computador.

Esta pesquisa inclui a avaliação dos nascimentos registrados no Hospi­tal das Clínicas e no Centro de Referência em Saúde da Mulher – Mater Ribeirão Preto. Apesar de administrada pela secretaria Estadual da Saú­de, profissionais subordinados ao Hospital das Clínicas também atuam na Mater. Entre as constatações feitas neste período está o aumento no número de cesáreas, que passou de 26% para 32%. Um crescimento que, senão acentuado, tem se mostrado ascendente.

Para ele, uma das variáveis para o crescimento das cesáreas nos partos de alto risco está diretamente ligada ao surgimento da aids, fetos em apresentação pélvica e as cesáreas anteriores. “No caso da AIDS o parto passou a ser um momento de grande exposição do feto às secreções infectadas da mãe”, afirma.

Ele adverte que, nestes casos, um pré-natal com acompanhamento constante e com a gestante obedecendo todas as determinações médi­cas é fundamental para não haver transmissão do vírus para o bebê. Se a carga viral ficar indetectável abaixo de mil cópias/ml ela pode ter parto normal.

A Divisão de Obstetrícia do Hospital das Clínicas, coordenada por Geraldo Duarte, é referência no setor e composta por cinco docentes, 15 médicos assistente se sete residentes de quarto ano da faculdade de medicina. Os residentes de primeiro, segundo e terceiro anos não são fixos nesta divisão, pois passam também pela Divisão de Ginecologia e suas sub-especialidades – são cerca de 42.

Gravidez na adolescência 
A cada três dias uma criança ou adolescentes dá a luz na r egião de Ribeirão Preto. É o que aponta um levantamento feito pelo Centro de Pesquisa em Economia Regional (Ceper) da Fundação para Pesquisa e Desenvolvimento da Administração, Contabilida­de e Economia (Fundace), divulgado por meio de seu Boletim de Saúde, em abril. O balanço traz as internações em 26 cidades da era de cobertura do Departamento Regional de Saúde (DRS-XIII) no período de 2008 a 2017.

Foram 23.616 internações de crianças e adolescentes decorrentes de gravidez, parto e puerpério, sendo 22.347 de adolescentes entre 15 e 19 anos e 1.269 internações de meninas entre 10 e 14 anos. O número é considerado alto, com média de 2,36 mil por ano, 1,97 mil por mês e superior a seis por dia. Cajuru e Guariba lideram o ranking das cidades que mais possuem internações decorrentes de gravidez, parto e puerpério entre adolescentes.

Nestas cidades, a cada dez mil habitantes, aproximadamente 2,5 me­ninas de 10 a 14 anos precisam ser internadas por parto, aborto ou complicações na gravidez anualmente. As duas cidades também se destacam na faixa etária de 15 a 19 anos. Em ambas, a cada dez mil moradores, aproximadamente 40 adolescentes nessas faixas etárias são internadas ao ano por gravidez, parto e puerpério.

Na cidade de Ribeirão Preto foram 10.875 partos neste público, sendo 10.301 entre adolescentes de 15 a 19 anos, e 574 em meninas de 10 a 14 anos, com média ge ral de mil por ano, 90 por mês e três por dia. O boletim indica, no entanto, que nem todas as mulheres sejam da cidade, podendo ser oriundas de outros municípios ou regiões, mas que buscaram internação em Ribeirão Preto ou hospitais da área do DRS-13.

A média de internações apontadas no boletim indica que a cada mil habitantes na faixa etária de 10 a 14 anos, uma precisa ser internada por fatores ligados à gravidez por ano. E na faixa etária de 15 a 19 anos, 20 foram internadas por gravidez, parto e/ou puerpério por ano.

Mesmo ficando abaixo da média do Brasil – que é 68 gestações na faixa etária de 15 a 19 anos por mil habitantes –, o índice da região de saúde de Ribeirão Preto ainda é um número expressivo, ficando distante de índices de países desenvolvidos, como o do Canadá, que é 11 gravidezes entre 15 e 19 anos a cada mil habitantes. A Orga­nização Mundial da Saúde (OMS) estimula que os países com taxas altas apoiem programas dirigidos para mulheres em maior vulnerabi­lidade para gestações precoces.

O parto único espontâneo e as complicações durante o parto foram responsáveis por 77% das internações de mulheres na região de Ribeirão Preto. A faixa etária entre 20 e 29 anos foi a que mais con­centrou casos de gravidez e parto e representou mais da metade de todas as internações decorrentes do tema em 2017.

A segunda faixa que mais se concentra casos é a dos 30 aos 39 anos, cerca de 30% no referido ano – ambas são consideradas, inclusive, como o período mais adequado à natalidade levando em consideração a saúde da mulher. A última faixa etária com informa­ção marcante é a dos 15 aos 19 anos.

Região tem mais de 16 mil partos em 18 meses 
Os 26 municípios que compõem o Departamento Regional de Saúde de Ribeirão Preto (DRS-XIII) registraram, nos últimos 18 meses, 16.665 partos pelo Sistema Unificado de Saúde (SUS), média mensal de 925 e diária de 30. Deste total, 10.788 foram registrados no ano passado – quase 900 por mês (899) e 30 por dia – e 5.877 no primeiro semestre de 2018 – média mensal de 979 e diária de 32.

Somente no Centro de Referência em Saúde da Mulher – Mater Ribeirão Preto foram feitos 2.973 procedimentos em 2017 e 1.449 este ano, 245 por mês, oito por dia. Vale lembrar que aquela unidade é referência para toda a região de Ribeirão Preto na atenção à mulher e partos de gestação de baixo e médio risco, além de internações ginecológicas e obstétricas para as pacientes da unidade, preconizando o atendimento humanizado. Cerca de 75% dos procedimentos realizados na Mater foram os chamados ” partos normais”.

Fazem parte do Departamento Regional de Saúde os municípios de Altinópolis, Barrinha, Batatais, Brodowski, Cajuru, Cássia dos Coqueiros, Cravinhos, Dumont, Guariba, Guatapará, Jaboticabal, Jardinópolis, Luís An­tônio, Monte Alto, Pitangueiras, Pontal, Pradópolis, Ribeirão preto, Santa Cruz da Esperança, Santa Rita do Passa Quatro, Santa Rosa de Viterbo, Santo Antônio da Alegria, São Simão, Serra Azul, Serrana e Sertãozinho.

 

Fonte: www.tribunaribeirao.com.br/site/hc-faz-141-partos-de-risco-por-mes

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