Endividamento das famílias brasileiras continua em queda

Dificuldade de crédito faz com que as famílias se endividem menos e inadimplência tende a deixar de crescer

O endividamento das famílias brasileiras em relação à renda continua caindo nos últimos meses. De acordo com o Boletim Crédito do Ceper/Fundace, baseado em dados do Banco Central em abril, o endividamento foi de 41,64%, o menor valor desde setembro de 2011.

Esta queda, apesar de positiva, segundo análise dos pesquisadores do Ceper, tem como principais causas o fraco desempenho econômico brasileiro e está relacionada a aspectos como a incerteza dos consumidores diante do cenário de desemprego alto e restrições ao crédito, decorrente de desconfiança do sistema financeiro.

O boletim mostra também que tanto a inadimplência de pessoa física como, principalmente, de pessoa jurídica aumentaram nos últimos meses. Relativamente baixa no início de 2016 (2,73%), a inadimplência das empresas passou para 3,46%, em dezembro de 2016, para 3,83% em abril deste ano, maior valor da série histórica disponibilizada pelo BC, desde março de 2011.

“Espera-se que a inadimplência das empresas não continue crescendo acentuadamente nos próximos meses devido à diminuição dos investimentos realizados – em razão da ainda estagnada situação econômica brasileira e do atual cenário de restrição ao crédito – que, consequentemente, inviabiliza novos endividamentos”, analisa o coordenador do Boletim Luciano Nakabashi, que também é professor da FEA/USP-RP.

Estabilidade

A inadimplência dos consumidores (pessoas físicas) tem permanecido estável, atingindo o valor de 4,05% em abril. “Um dos motivos que ajudam a entender este comportamento da inadimplência dos consumidores é a dificuldade de tomada de crédito, que faz com que as famílias se endividem menos”, aponta o pesquisador.

Resultado da média ponderada das duas inadimplências, a inadimplência total também apresenta trajetória ascendente nos últimos meses, tendo saído de 3,71%, em dezembro do ano passado para 3,94% em abril deste ano.

Operações de crédito

O Boletim mostra forte queda do saldo das operações de crédito tanto para pessoas físicas como para pessoas jurídicas. No volume de crédito destinado às empresas, houve redução de 24,3% na comparação entre janeiro de 2016 e abril deste ano. Para os consumidores, a redução no mesmo período foi de 11,1%.

Considerando o período de 12 meses, de abril de 2016 a abril de 2017, a categoria com pior desempenho foi financiamentos em geral, que oscilou entre -16,1% (Região Metropolitana de São Paulo) e -46,5% (Sertãozinho).

Financiamentos imobiliários foi a categoria com melhor desempenho, com variação percentual em 12 meses entre -7,6% (Região Metropolitana de São Paulo) e -0,7% (Franca), considerando-se as regiões analisadas.

Em relação ao crédito voltado para o agronegócio houve crescimento, nos últimos 12 meses, em Campinas e Sertãozinho (6,3% e 3,3%, respectivamente). Mas, todas as demais regiões seguiram uma trajetória de retração. Neste sentido, destacam-se as variações de -16,1 e de -15,3% de São José do Rio Preto e da Região Metropolitana de São Paulo, respectivamente.

As evoluções das modalidades de crédito no município de Ribeirão Preto e em sua Região Administrativa caminharam de forma similar devido, principalmente, à grande participação do município no volume de crédito da região.

Análise

As informações divulgadas pelo BCB indicam redução das aprovações de crédito para pequenas, médias e grandes empresas. Isso pode ser explicado, em parte, pelo aumento da inadimplência de pessoas jurídicas, que acarreta em dificuldades para financiamentos e investimentos. Por outro lado, a falta de demanda também ajuda explicar a retração das operações de crédito. Verifica-se, ainda, que houve redução no endividamento das famílias, que pode ser atribuída à existência de obstáculos para a concessão de crédito e pela menor demanda por parte das famílias em função da redução da renda e da alta do desemprego. A trajetória de redução da taxa básica de juros pelo Banco Central tende a estabilizar as operações de crédito até o final do ano, com possibilidade de estimular o consumo e o investimento ao longo de 2018. Quando o emprego começar a se elevar de forma mais consistente, o que tende a ocorrer ao longo de 2018, o processo de redução de juros e queda do endividamento das famílias e empresas, como visto anteriormente, tende a abrir espaço para um aquecimento da demanda, gerando um crescimento mais vigoroso a partir de 2018, deixando de vez esta grave crise pela qual o País tem atravessado. No entanto, para que o Brasil mantenha uma taxa de crescimento em torno de 3% ao ano ou um pouco acima a partir de 2019, é fundamental que a agenda de reformas prospere. Luciano Nakabashi, economista e professor da FEA/USP-RP.

Fonte: www.acidadeon.com/ribeiraopreto/economia/NOT,2,2,1267501,Endividamento+das+familias+brasileiras+continua+em+queda.aspx

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